Por Álvaro Torres, historiador e jornalista
Um parente europeu, de férias em Maringá, não entendeu por que não cuidamos como deveríamos de um patrimônio verde tão valoroso como o da nossa cidade. No Parque Alfredo Nyeffeller, ele se espantou com a altura do mato que toma conta do local. Vimos com indignação o lixo acumulado às margens do lago. No Parque do Ingá, o parente se encantou com o verde, mas senti vergonha do estado de abandono do local. Ele se embasbacou com a exuberância das árvores nos espaços públicos e admirou a riqueza ecológica do Parque dos Pioneiros e do Horto Florestal. O abandono dos espelhos d’água da catedral então… Inaceitável.
O parente sabia que Maringá é uma cidade de urbanização recente, planejada e que se destaca pela qualidade de vida. Como pode, disse ele, uma cidade que deve atingir em 2007 o IDH de 0,900 — o que caracteriza qualidade de vida muito alta, segundo a ONU — não defender este patrimônio verde com ardor? Ele me olha sério e diz que talvez seja porque hoje o Brasil é o maior destruidor de florestas tropicais e equatoriais do planeta. Digo que em um país subdesenvolvido, com graves problemas socioeconômicos para resolver, as preocupações ecológicas nem sempre são prioridades.
Para falar em nome do país, percebo estar usando o argumento cínico que encobre o descaso com que tratamos a questão ecológica. Minha tentativa de resposta é cretina. Algo se retorce dentro de mim. Sei que o que o parente diz é verdade. É claro que percebi a contradição: a preocupação ecológica é um fenômeno de sociedades pós-industriais. De modo geral, o sujeito só se torna verde depois que aniquila todo o verde que tinha à sua volta. É assim com os Estados Unidos, cuja voracidade em relação ao meio ambiente, desde suas origens como nação, não tem par. É um pouco assim, também, com o Japão. A fuligem no ar japonês é assustadora (motoristas japoneses têm o hábito de tirar longas sonecas com o motor e o ar-condicionado do carro ligados).
De todo modo, a constatação não deve causar um dar de ombros, como se não nos restasse alternativa senão destruir para crescer. Só porque em vários países o desenvolvimento ocorreu à custa do quase esgotamento dos recursos naturais, não significa que precisemos incorrer no mesmo erro. A preservação do meio ambiente não implica a preservação de condições subdesenvolvidas — como geralmente se acredita em países subdesenvolvidos.
Ninguém discute, por exemplo, a urgência da demanda energética brasileira e a importância de uma usina como Itaipu para a solução do problema. Não precisávamos, no entanto, ter varrido Sete Quedas do mapa por conta disso. Com um pouco menos de obtusidade política e um pouco mais de consciência ecológica, senão de sensibilidade estética e bom senso, poderíamos ter todos os quilowatts de Itaipu e ainda teríamos aquela que era uma das pérolas do turismo no planeta para visitar com os filhos nas férias.
O raciocínio serve para Maringá. O que fariam escandinavos, ingleses ou alemães se tivessem, por exemplo, um Parque do Ingá, na rota de Foz do Iguaçu, em algumas de suas cidades? É bem provável que simplesmente organizassem o local. O potencial turístico do nosso querido bosque é o óbvio ululante de Nelson Rodrigues: ele esfrega sua evidência em nosso nariz de um modo tão explícito que não o percebemos.
Com o estabelecimento de uma infra-estrutura mínima, os japoneses que visitam anualmente as cataratas seriam os primeiros a desembarcar às centenas em Maringá para conhecer a combinação de urbanismo moderno com a fauna e a flora da cidade. Os japoneses adoram o exotismo — embora precisem de claras garantias de segurança para topar a aventura. Muitos deles jamais viram uma cotia ou um quati ao vivo. Avistar meia dúzia de animais tropicais em seu hábitat natural no centro de uma grande cidade seria tema para um japonês contar a seus netos.
Eles são, ainda, fanáticos por pescaria (daquele tipo civilizado em que o cidadão mede o peixe, tira a foto e o devolve às águas). Um japonês que puxasse um peixe das águas do Parque Alfredo Nyeffeller talvez nem quisesse voltar para o seu emprego na Matsushita e para seu Toyota Celsior. Ou, no mínimo, retornaria ao Paraná todo ano, trazendo cada vez mais amigos para torrarem juntos seus bônus em Foz do Iguaçu e em nossa região. Com os japoneses, viriam hordas de europeus, norte-americanos, gente de todo o mundo. O comércio ganharia em dinâmica. A agricultura também. E a vinicultura também. E a piscicultura também. E etc.
Para muita gente que vem para cá, Maringá tem uma eletricidade especial — um quê de misticismo que emana do silêncio verde, virgem dos seus parques. Enfim: um diferencial absolutamente vendável, fácil de promover. Se os norte-americanos conseguem fazer milhões com uma cidade de mentira no meio de um deserto tórrido, somente sendo muito incapazes e míopes não faríamos de Maringá uma opção para turistas do mundo inteiro. O resto é apenas a nossa crônica falta de visão estratégica, talento empreendedor, tino empresarial e bom gerenciamento.